Professora processará vereador Di Gregório

Vídeo filmado por Jair Di Gregório (PP) dá a entender que a educadora Raquel Santos levava alunos à exposição que ele acusa de apologia à pedofilia


por Lucas Simões

 

O vereador e pastor evangélico Jair di Gregório (PP) tem capitaneado uma série de ataques contra a exposição de Pedro Moraleida no Palácio das Artes. Crédito: Youtube/Reprodução

Após ataques às artes em Belo Horizonte, não são apenas artistas que acionarão a Justiça contra os políticos que insistem em censurar suas obras. A professora de educação básica Raquel Santos também processará o vereador Jair Di Gregório (PP), parlamentar e pastor da Assembleia de Deus, que desde a semana passada faz campanha contra a exposição de Pedro Moraleida, “Faça Você Mesmo Sua Capela Sistina”, vista por mais de seis mil pessoas no Palácio das Artes e aprovada pelo prefeito Alexandre Kalil.

(Leia aqui matéria sobre os ataques à exposição: http://www.obeltrano.com.br/portfolio/um-negro-preso-arte-e-raiva-religiosa/).

A professora decidiu recorrer à Justiça após ser filmada pelo vereador, enquanto saia com dezenas de alunos de um festival de filmes infantis na sala Humberto Mauro, no Palácio das Artes, na última quarta-feira (04/10). No vídeo, mesmo a educadora negando ter visitado a exposição de Pedro Moraleida, o parlamentar insiste em associar a visita dela e das crianças à mostra artística, acusada por ele de fazer apologia à pedofilia. Nas imagens, algumas crianças têm os rostos expostos. 

A educadora preferiu não dar entrevista, segundo ela, para não atrapalhar o andamento da ação judicial, mas confirmou a O Beltrano que uma advogada já cuida de uma ação contra Jair Di Gregório.  A secretária municipal de Educação, Ângela Imaculada Loureiro de Freitas Dalben, enviou um ofício à Câmara Municipal, nesta segunda-feira (09/10), no qual afirma que a atitude do vereador “fere o decoro parlamentar”. Ela cobra uma investigação da casa sobre a postura do parlamentar. “Vislumbra-se flagrantecrime contra a honra da professora envolvida e da imagem dos alunos, acusados, erroneamente, de participarem do evento inadequado para a faixa etária dos mesmos. Consequentemente, houve prejuízo tanto para a escola municipal quanto para a Secretaria Municipal de Educação”, diz trecho do ofício.  

Anteriormente, a Secretaria Municipal de Educação (Smed) havia repudiado as imagens filmadas pelo vereador. Em nota à imprensa, a Smed justificou que “os alunos que aparecem no vídeo não foram ao local para ver tal exposição e foram filmados sem autorização dos professores e sem qualquer documento de autorização de uso de imagem assinado pelos responsáveis, em uma situação fora do contexto da excursão escolar”. O documento ainda ressalta que “ao veicular o vídeo com a presença dos estudantes, quem o faz não só expõe irresponsavelmente a imagem das crianças, como colabora para propagar informações errôneas sobre as ações da Smed”, diz o texto, encaminhado ao presidente da Câmara Municipal Henrique Braga (PSDB) e ao Conselho Municipal de Educação. 

Por isso, O Beltrano optou por não reproduzir o vídeo nesta reportagem, para evitar a propagação da falsa acusação contra a professora Raquel Santos. 

Procurado, o vereador Jair di Gregório (PP) disse que “em momento algum feriu o decoro parlamentar”. Ele confirmou que gravou o vídeo em que a educadora aparece com as crianças, mas que publicou o material na íntegra, em sua página no Facebook, “sem distorções”, segundo ele. “Eu estava fazendo um ‘ao vivo’ e ali fica claro ela respondendo tudo, sem nenhum engano ou distorções. Depois, apareceu uma versão editada nas redes sociais”, justificou o parlamentar. 

Apesar disso, a versão editada do vídeo foi publicada no próprio canal do Youtube do vereador, no dia 4 de outubro, e já passa das 23 mil visualizações. Questionado, o parlamentar se esquivou e se limitou a dizer que “que não irão me calar”. O vereador também não desistiu de acionar o Ministério Público contraa exposição de Pedro Moraleida. “Vou prestar queixa contra a exposição. Isso não pode ficar assim”, completou. 

Nesta terça-feira (10/10), às 18h, manifestantes contrários à exposição de Pedro Moraleida retornam ao Palácio das Artes para mais um protesto. 

Mais polêmica 

No último domingo (08/10), Jair di Gregório foi criticado por Caetano Veloso, após o músico baiano visitar a exposição de Pedro Moraleida, aproveitando sua passagem pela cidade com a turnê “Caetano Moreno Zeca Tom Veloso”, realizada junto com os filhos, no Palácio das Artes. Sobre os ataques à exposição, Caetano culpabilizou “alguns políticos que quiseram se aproveitar de uma maneira demagógica para enganar o povo”. Segundo ele, “o povo fica assustado que alguém está fazendo alguma coisa no sentido de produzir pedofilia, mas não há nada de pedofilia aqui, há arte”, completou Caetano. 

Em resposta, o vereador Jair di Gregório voltou a gerar polêmica em um post no Facebook, ao atacar diretamente o relacionamento entre o Caetano Veloso e sua ex-companheira, a produtora Paula Lavigne. “Matérias de revistas comprovam que Paula Lavigne perdeu a virgindade com ele (Caetano Veloso) aos 13 anos”. Paula Lavigne encabeça o movimento #342artes, que reúne dezenas de artistas decididos a processar os políticos que acusaram suas obras e manifestações artísticas de apologia à pedofilia, zoofilia e cristofobia. Entre elas, Adriana Verejão, autora da obra “Cena Interior II”, presente na mostra QueerMuseu, encerrada precocemente em Porto Alegre após protestos conservadores.