A inquisição virtual e a tirania da opinião em um romance de Michel Laub


Por André Nigri

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O Tribunal da Quinta-Feira, de Michel Laub, começa com um curto capítulo de nove linhas:

“Ter um corpo de quarenta e três anos não impede que você pense como alguém de quinze. Um amigo meu gosta de fazer piadas sobre merda. Ele manda um WhatsApp: interditei o vestiário. Preciso comer mais linhaça, ele diz. Linhaça é saúde, granola e frutas, o reino das polpas cheias de fibras que tornam consistente o produto das entranhas, um bolo de micro-organismos vivos dos quais só nos lembramos ao sentar no vaso. É muito delegante começar falando disso? Também lembramos do que somos feitos quando pensamos na morte.”

Estamos sentados em um tribunal, talvez no banco dos jurados, talvez como terceiranistas de direito, mas mais provavelmente como curiosos sádicos, com aqueles sentimentos mistos da testemunha anônima diante de uma cena de execução. No banco dos réus está sentado João Vítor, quarenta e três anos, publicitário, bem posto na vida, recém-saído de um terceiro casamento, e a seu lado, Walter, também publicitário, da mesma idade, gay, soropositivo e melhor amigo de João Vítor.

O que está sendo julgado? Qual o crime imputado aos dois velhos amigos? Mensagens trocadas por e-mail. A agora ex-mulher de João Vítor encontra, mexendo em velhos papéis deixados numa gaveta, a conta de e-mail e a senha do ex-marido. Mais um trecho: “Silêncio no tribunal, a sessão vai começar. Solicita-se a presença do outro réu (Walter). Ele também será submetido ao tratamento da casa. Bastam algumas piadas sobre merda. Basta meia dúzia de mensagens sobre cu. Basta uma dúzia de termos ofensivos registrados no presente eterno das caixas virtuais, e algo escrito há anos e em outro contexto equivale a uma ofensa cara a cara dita hoje.”

Começa então o linchamento. As torneiras se abrem e a internet é inundada com as mensagens trocadas pelos criminosos, provavelmente em razão da vingança da ex-mulher com quem o réu viveu por seis anos.

Ah, o casamento! Todos nós julgamos encontrar uma vez na vida nosso complemento… não foi diferente quando JV foi apresentado a Teca, uma descolada arquiteta de classe média alta, bom gosto, mestrado na França, livros “calculadamente” dispostos na estante para dar a impressão de que são consultados… além disso, ou melhor, sobretudo isso: eles se dão esplendidamente bem na cama. Finalmente, JV, que se julgava incapaz de voltar a amar depois de duas relações fracassadas, pode lançar ferros e fundear em uma baía de águas tranquilas.

Mas passados quatro anos dividindo o mesmo teto e uma estagiária vinte e três anos mais nova na agência, o desejo deu lugar ao tédio, à troca automática de gestos, afetos, gentilezas e obrigações conjugais. Tudo isso é detalhado a Teca enquanto nós, acomodados confortavelmente nas poltronas do palácio da justiça, vamos nos deliciando, aguardando onde aquilo vai dar, embora o pressentimento já se desenhe em nossas entranhas prenhes de volúpia, a volúpia da desonra, do esmagamento moral, do enxovalhamento de um réptil, e já estamos com as duas mãos segurando as pedras prontas a atirar no misógino, no abusador, no cretino etc. Etc.

Ah, o sonho da igualdade universal! A totalidade igualitária! André Breton tinha um desejo: um dia todos seremos como uma casa de vidro. Há de chegar o dia da Transparência Total!

Nos anos 60 e 70, os regimes comunistas sob controle soviético na Europa precisavam recolher provas contra seus membros, o chamado desvio pequeno-burguês. Para isso, colocavam aparelhos de escuta, gravavam conversas telefônicas, depois as editavam e as propagavam pelo país na rádio oficial do regime. Stendhal apontava as pequenas cidades como o local da tirania da opinião, ao contrário da “república de Paris”. O autor de O Vermelho e o Negro escrevia nas primeiras décadas do século 19, e talvez não pudesse prever a transformação do mundo em uma pequena aldeia.

Quando conversamos na intimidade, com um amigo muito querido, com a pessoa amada, nossa fala é irrefletida, repetimos frases, palavras, utilizamos códigos, piadas internas, xingamos, ofendemos, empregamos expressões grosseiras, grotescas, moralmente indefensáveis, mas inofensivas porque só a usamos, repito, na intimidade.

Quando trechos dessas conversas, trechos editados, tornam-se públicos, somos colocados no pelourinho, somos transformados em alvos de escárnios, somos linchados.

Flaubert descobriu antes de todo mundo o pesadelo no ventre da promessa do iluminismo: a tecnologia não torna os homens melhores, ao contrário, ela os piora. Hoje, na nossa esclarecida civilização ocidental, como todos sabemos, o totalitarismo político, o Estado policial e orweliano, graças ao nosso insaciável apetite por democracia e liberdade, não mais existem. É verdade. Mas uma força imponderável e mais nociva arrasta seus tentáculos, tece uma grande teia (web) onde se emaranham todos nós: a realidade virtual, essa fascinante autoestrada das opiniões, o maior monumento erguido em homenagem à bêtise, e então nos multiplicamos em Bouvards e Pecuhets, os maiores heróis da modernidade inventados, ou melhor, descobertos por Flaubert – pois eles sempre estiveram por aí – dos tempos modernos.

A intimidade de dois amigos vazada – e editada – os tornam monstros morais em poucas horas. Teca monta o dossiê do seu ex-marido em uma tarde de domingo e segunda-feira a internet já está cheia de comentários e compartilhamentos. Sabemos como é isso, é preciso estar ao lado das boas consciências, ser esclarecido. Uma precaução utilizada em frases na cruzada moral contra o personagem é: não sou preconceituoso, mas… Sim, não somos preconceituosos, mas você agiu errado, você não pode guardar seus segredos, deve exibir sua intimidade, e sua intimidade não pode ser diferente de sua publicidade – ironicamente o herói decaído de Laub é um publicitário.

Copio mais um trecho: “Todo fascista julga estar fazendo o bem. Todo linchador (entre nossas alardeadas primazias está sermos o país com maior número de linchamentos) age em nome de princípios nobres. Toda vingança pessoal pode ser elevada a causa política, e quem está do outro lado deixa de ser um indivíduo que erra como qualquer indivíduo, em meia dúzia de atos contra milhares praticados ao longo de quarenta e três anos, para se tornar o sintoma vivo de uma injustiça histórica e coletiva baseada em horrores permanentes e imperdoáveis.”

A novela de Michel Laub para de vibrar um pouco quando o narrador começa a falar de seu novo relacionamento com a menina vinte e três anos mais nova que vai trabalhar na agência de publicidade da qual ele é o diretor. Os dois vão a um bar, bebem e acabam no motel e aquilo que poderia ser apenas uma noite de diversão sem compromisso começa a se tornar sério, até o dia no qual JV pega suas malas e sai de casa. Dani, a menina, é filha de uma cabelereira que deu duro na vida, nasceu e cresceu num bairro de classe média baixa, estudou em escola pública e não vê problema algum em sair com o chefe. Ao contrário dos bens pensantes e esclarecidos membros da classe elevada, ela parece pisar a realidade sem pantufas nos pés. Há um certo esquematismo nisso e o livro perde volume. Isso também reverte o pressentimento que assalta o leitor nos primeiros capítulos, mas é um pequeno deslize, assim como o morno final.

Termino com um belo recado confessado pelo narrador – um narrador que ecoa sua imensa intimidade como o Humbert Humbert de Nabokov, mas sem a alta voltagem do personagem mais cínico da literatura: “Mandar o resto do mundo à merda, porque ninguém tem nada a ver com o que esses dois adultos fazem na intimidade e consensualmente.”

O Tribunal da Quinta-Feira, de Michel Laub, Companhia das Letras, 2016

Literatura

André Nigri

Jornalista, crítico literário e leitor compulsivo.