A água viva e o óleo fascista


Por João Gualberto Jr.

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Nada é tão anticristão como o fascismo! As práticas de intolerância, ódio e violência são o avesso extremo do cristianismo. Aquele que professa a crença e a fé em Jesus e cultiva condutas fascistas serve a dois senhores, tarefa impossível. Seria este um quadro de desequilíbrio funcional grave, distúrbio psiquiátrico. Ou então, caso de hipocrisia crônica mesmo, o velho conhecido fermento dos fariseus.

Enxergar nos Evangelhos substância moral que justifique qualquer atitude assertiva de confronto a outra pessoa requer uma distorção interpretativa tão gigantesca, tão absurda, que só pode ser coisa de celerado… ou do mais contumaz mal intencionado. Como agredir se Jesus elegeu como segundo mandamento a equiparação ao autoamor do amor ao outro? Como condenar tanto e tão rigorosamente se nos foi ensinado que não devemos julgar para não sermos também julgados?

Foi publicada este ano no Brasil uma tradução para o português, vertida diretamente do grego, do Novo Testamento – os quatro Evangelhos, os Atos dos Apóstolos, as epístolas de Paulo e outras e o Apocalipse de João. O tradutor português Frederico Lourenço, autor da empreitada, esteve no Brasil em abril para lançar o primeiro volume e disse ser impossível associar o nome Jesus a qualquer discurso de ódio: “as denominações cristãs mais conservadoras fazem uma leitura seletiva da Bíblia e atêm-se aos aspectos que mais lhe convêm”, declarou o doutor em Línguas ao portal UOL.

Lourenço frisou ainda o quanto a tradição de repressão dentro do cristianismo é oposta à “mensagem radical de despojamento e amor”, tônica do Evangelho. O viés seletivo talvez ajude a compreender por que diversas congregações evangélicas, neopentecostais ou mesmo protestantes parecem estar teologicamente mais alicerçadas no Antigo Testamento, que dominam e pregam, demonstrando predileção pelo ancestral Deus moisaico duro, punitivo e severo, em detrimento do Deus de misericórdia e amor que o Cristo apresentou e legou à humanidade.

Alteridade talvez seja o denominador comum mais nítido da pedagogia de Jesus: nossa conduta como indivíduos deve se pautar pelo amor ao outro, pelo perdão ao outro, pela compaixão pelo outro, pela caridade e por fazer ao outro apenas aquilo que queremos que o outro nos faça. São diretrizes naturais que derivam da dimensão de que Deus é o Pai e que todos nós, filhos Dele, somos irmãos: humanidade como sinônimo de irmandade. Esse traço de alteridade é tão forte que a influência do cristianismo sobre Roma, a partir de Constantino, no século IV, alterou as noções de direito e justiça civis romanos, que ganharam forte base nas inter-relações, como até hoje se evidencia no mundo ocidental.

Por outro lado, o que seria o fascismo se não a transposição do egoísmo arraigado para o campo coletivo? A lógica de ação fascista, grosso modo, se dá pela arregimentação dos iguais para o combate ao diferente. E por que o diferente deve ser combatido? Pela perspectiva fascista, porque tem menor validade e representa uma ameaça àquele facho que se julga mais valioso. Por isso, os valores patrióticos são sempre manipulados e exalçados pelo fascismo, como contraposição ao perigo estrangeiro (seja o estranho considerado tal por seus valores, suas crenças, sua raça, suas condições sociais e, propriamente, por sua origem geopolítica).

Se o diferente é menor e se essa condição justifica atacá-lo, eis uma relação que passa longe da orientação cristã de fraternidade. Se a arrogância da supremacia dos meus valores leva-me a menosprezar e suprimir os valores alheios, não é possível considerar o outro como meu igual, meu irmão. E se o combate de valores pode ser convertido unicamente em confronto físico e, no extremo, no anseio de eliminação dos portadores dessas ideias diferentes, como venerar aquele que aceitou resignado as mais cruéis violências praticadas pelo poder de sua época justamente por não ter sido compreendido? Que lance a primeira pedra aquele que estiver livre de pecado, aquele que não tem consciência de vidro.

Como é possível um sacerdote, um líder cristão, deixar-se seduzir por práticas fascistas, que diminuem o outro, que agridem o diferente, que proclamam o ódio? As razões dessa antítese tendem a ser complexas, como bem condiz às idiossincrasias brasileiras. De toda forma, estamos diante de uma contradição patente.

Como cruzados medievais, diz-se lutar pela preservação dos valores da família contra a sensualidade exacerbada, a sodomia e a pedofilia. Bem, de acordo com pesquisa do Ipea deste ano, a criança ou adolescente vítima de violência sexual no Brasil tem como agressor o pai, o padrasto, um irmão ou alguém íntimo da família em 56% dos casos. Já em relação às mulheres violentadas, o agressor familiar responde por 40% dos crimes. Mudará esse quadro impedir a população de visitar determinada exposição de arte? A incidência de crimes sexuais domésticos será reduzida com o cerceamento arbitrário a esta ou aquela galeria? Se nossa sociedade tem graves doenças, é importante não confundirmos reflexos com causas. Perante estatísticas como as descritas acima, algum louco pode defender a extinção da instituição familiar posto que os dados podem demonstrar sua decrepitude moral e social.

Em se tratando de quiproquós semânticos atuais, um pensamento diz que convém não confundirmos Jesus com o que fizeram dele. A intolerância destilada e derramada em seu nome, diariamente, por pura ignorância ou má fé de falsos profetas, não merece se desdobrar em uma escalada de ódio. Não é no olho por olho que construiremos uma sociedade mais justa e livre, emancipada e irmanada.

Aquele que tinha como amigos pescadores pobres, aquele que andou entre ladrões, leprosos e prostitutas ensinou que o lugar do médico é entre os doentes que do concurso dele necessitam. Qual seria o círculo de relações de um Jesus renascido hoje? Estaria ao lado dos novos fariseus que desejam impor padrões de vida em agressão àquilo que lhes é diferente, dos que atacam com a palavra, mas não são capazes de traduzir suas condutas em exemplo? Fosse o novo Cristo das quebradas, chegado da população LGBTT e das gentes sofridas, encarado como ameaça, um novo Sinédrio não tardaria em mandar executá-lo. Não por ele representar uma ameaça a valores, mas, sim, à estrutura de poder vigente.

Ele dá medo, principalmente a obediência em seguir os caminhos que indicou trilhando na frente. Talvez por isso, tão distorcido, tão pobremente e levianamente apropriado. Lembremos que um dos mais cheios endereços das cracolândias de São Paulo, que a desumanidade do prefeito tentou inutilmente debelar com violência, é o Largo Coração de Jesus.

Conto-reportagem

João Gualberto Jr.

Jornalista, economista e cientista político.