As vozes de Grace Passô

Atriz e dramaturga apresenta em BH novo espetáculo “Preto” e prepara continuação do aclamado solo “Vaga Carne”


Por Lucas Simões

foto Nana Moraes

A atriz e dramaturga Grace Passô, 37 anos, não se “aprisiona em gavetas”, como ela mesma se refere ao seu ofício. Mesmo ganhando alguns dos principais prêmios do teatro brasileiro, incluindo Shell e APCA, e chamando a atenção para reflexões que partem do racismo, da desigualdade social e do feminismo, a forma de fazer teatro de Grace é ampla, munida de inúmeras temáticas interseccionais. “Eu sequer começo a escrever a partir de um tema só, eu começo a partir de vários, muitos deles pouco nomeados até por mim. Mas é claro que eu tenho a plena consciência que eu venho de lugares que são lugares que foram e que são historicamente invisibilizados e silenciados. São vários lugares, não só relacionados à negritude. E, de alguma forma, partir desses lugares é interessante para expandir horizontes”, analisa Grace.

Esses vários lugares aos quais a atriz mineira se refere são basicamente a essência do espetáculo “Preto”, apresentado até o próximo dia 30 de abril no CCBB de Belo Horizonte. Convidada pela Cia Brasileira de Teatro para assinar uma dramaturgia coletiva ao lado de Nadja Naira e do também diretor da peça Marcio Abreu, Grace Passô fez o que sabe fazer de melhor: escrever e interpretar sem amarras.

Ainda na concepção inicial, a tônica de “Preto” está em falar a partir da negritude e do racismo — e não necessariamente sobre os temas, encerrando-os em si mesmos ou explicando-os ao público. “Eu fui convidada pela Cia Brasileira de Teatro para criar e interpretar num processo coletivo a partir da negritude. É diferente porque não estamos tentando explicar ou moralizar a questão, nem resumi-la a um caráter didático simplista”, diz Grace.

Muito por isso, no palco, os atores e atrizes Renata Sorrah, Cássia Damasceno, Felipe Soares, Rodrigo Bolzan, Grace Passô e Nadja Naira se apresentam com seus nomes mesmo, como se transpusesse as próprias vivências para uma interpretação em monólogos abarcada por perspectivas distintas. “É claro que é um grupo onde as experiências relacionadas às questões de negritude são extremamente distintas. Somos pessoas negras, não negras, somos homens, mulheres, viemos de diferentes cidades brasileiras. Temos idades completamente diferentes, viemos de classes econômicas diferentes, tudo isso faz da gente um grupo muito misturado. E, de alguma forma, nos apresentarmos com nossos nomes provoca uma relação diferente, uma quebra na dramaturgia convencional que estabelece lugar fixo para o público e o ator”, aponta Grace.

foto Nana Moraes

É com essa espécie de subversão ao próprio teatro que Grace Passô conduz sua carreira de mais de duas décadas, agora também com experiências mais intensas no cinema. Com o badalado “Praça Paris”, dirigido por Lúcia Murat, ela deu vida à personagem Glória, uma moradora do morro carioca, ascensorista da Universidade Federal do Rio de Janeiro, mas longe de “estereótipos comuns dos filmes brasileiros”, como Grace pontua. “A minha primeira conscientização foi me preocupar em usar todas as informações relacionadas à violência, tanto dentro de casa quanto do Estado, que ela sofreu como motor para compor uma sobrevivente, uma vencedora. Uma pessoa que ainda estava viva por uma inteligência profunda, por uma sensibilidade profunda. Minha perspectiva ali foi lidar com histórias de violência daquela personagem como algo que ela conseguiu potencializar a sua inteligência a sua capacidade de sobrevivência no Brasil. Caso contrário, ela só seria mais uma personagem que reafirmaria estereótipos já muito vistos no cinema brasileiro”, analisa Grace.

Mesmo com mais dois filmes no currículo ainda para estrearem, “Coração do Mundo” e “Temporada”, e com uma frutífera relação com o cinema, o teatro para Grace Passô é a paixão livre e absoluta de expressão — diferente da TV e do próprio cinema. Desde os 14 anos, ainda nas aulas de teatro amador, Grace encontrou um universo múltiplo nas escolas de teatro e grupos onde passou, como Palácio das Artes, as companhias Armatrux e Clara e o Grupo Espanca!, do qual ela ajudou a fundar e permaneceu por dez anos, entre 2004 e 2014. “Me lembro da primeira aula que tive de teatro, me chamou muita atenção como as pessoas eram muito diferentes dentro da sala. Eu me sentia bem, eu me sentia muito familiarizada naquele espaço. O teatro reúne também, na sua natureza, pessoas que estão, de alguma forma, à margem da sociedade. Seja por uma exclusão social, seja por uma inadaptação às famílias. Uma porção de gente que esteve à borda dos padrões do seu universo e que, no teatro, poderia potencializar as diversidades”, disserta a atriz e dramaturga.

Ainda no Grupo Espanca!, Grace Passô desenvolveu uma espécie de narrativa nomeada de “espancar docemente”, algo que acompanha os reflexos e urgências do contexto em que se vive. Em sua estreia na escrita teatral, com os espetáculos “Amores Surdos” (2005) e  “Por Elise” (2006, que lhe rendeu seu primeiro Prêmio Shell), Grace se debruça sobre as complexidades dos afetos de modo mais subjetivo, sem perder o fio condutor social afiado. Mas é com Vaga Carne (2013), porém, espetáculo solo que debate a identidade da mulher negra a partir do próprio corpo, que a doçura do afeto vem carregada de uma violência inebriante e de uma expressão potente do lugar de fala da mulher negra. Um conjunto elogiado que rendeu a Grace Passô o segundo Prêmio Shell e elevou sua carreira a uma projeção nacional.

foto Nana Moraes

“Eu sei que represento para várias mulheres muitas coisas, muitas vozes abaixadas. O teatro que faço hoje ele é um reflexo de uma existência, digamos, que conseguiu vencer algumas guerras, que vem conseguindo furar uma blindagem muito potente, que é a blindagem do Do silenciamento, do apagamento. Então, quando pessoas como eu conseguem deixar com que essas vozes antes silenciadas vaguem por aí e se tornem expressivas, é claro que elas começam a ser alvo de muito desejo, em todos os níveis da arte, desejo das instituições, dos artistas, dos prêmios e tudo o mais”, diz Grace.

Assim como “Vaga Carne”, que ainda está em cartaz pelo país, o segundo solo da dramaturga, “Mata Teu Pai”, do ano passado, inflamou o debate sobre patriarcado, feminismo e desigualdades de gênero. “Escrevi o ‘Mata Teu Pai’ e muitas pessoas falam em uma escrita feminista, apesar de eu não partir de um tema só, nunca. Ainda assim, é um texto que ressignifica a figura da Medeia (do mito grego) e consequentemente do julgamento das mulheres. É levantar vozes que passaram muito tempo abaixadas”, atesta Grace.

Com peças traduzidas para o francês, italiano, espanhol, inglês, italiano, polonês e até chinês, Grace Passô prepara para este ano uma continuação de “Vaga Carne”, em novo espetáculo mas, desta vez, ao invés de solo, terá a presença de cinco mulheres no palco. “É uma peça que dá continuidade ao ‘Vaga Carne’, meu desejo é fazer apresentações do ‘Vaga Carne’, depois damos um intervalo para o público e vou fazer essa peça. Eu também estou começando a elaborar uma peça de teatro com a Zora Santos, uma atriz de BH”, completa Grace.