Entre a esperança e a revolta

Agricultores, criadores e moradores do entorno do canal estão, por ora, proibidos de utilizar a água do São Francisco


Por Bruno Moreno

 

Durante o planejamento do roteiro, por meio do Google Earth e sobreposições de mapas, me chamou atenção o povoado de Maravilha, próximo a Custódia (PE). Pela foto do satélite era possível ver que tudo ao redor das casas era branco, o que indica terreno arenoso, sem vegetação, e possivelmente dificuldades de acesso à água. Decidi passar lá para conhecer a realidade.

Acordei cedo e peguei estrada com destino a Maravilha. Até aqui havia dirigido em estradas de terra sempre ao lado ou próximo do canal. Esta seria a primeira vez no meio do sertão. O cenário ainda era de seca intensa, apesar de ter chovido há poucos dias na região.

Com a pouca chuva que veio do céu, as pequenas barragens da região começaram a encher. Não apenas com água, mas também com algas.

O borracheiro José Adailton Braz, 45 anos, morador de Maravilha, contou que as algas verdes se proliferam porque os peixes que viviam nos açudes e se alimentavam delas morreram com a seca.

Ele disse que a situação em Maravilha é bem precária. “Aqui a gente só consegue água através do poços, que só serve para limpeza de casa. É salobra e tem um gosto amargo de raízes e rocha. Para beber e cozinhar a gente tem que comprar. O pipa vem de uns 100 quilômetros. Eu gasto em torno de R$ 100 por mês com água”, disse.

O povoado fica distante 12 quilômetros do eixo leste do canal da transposição, e a ansiedade por poder utilizar a água é grande. “Essa água do canal não pode usar, nem mesmo quem é vizinho. Tem a vigilância e eles falam que essa água não pode ser utilizada dessa maneira. Tem primeiro que ter um processo, que eu não sei que processo é esse. Ver a água e não poder utilizar deixa a gente indignado”, disse.

Ao fim da conversa, o borracheiro me recomendou ir ao povoado de Caiçaras, que fica à margem do canal. No meio do caminho, encontrei vários atoleiros. Passei por alguns, mas havia um muito grande. Com receio de não passar, voltei até a última casa para perguntar se havia uma estrada alternativa.

Quem me atendeu foi a agricultora Cícera de Resende Sena, 29 anos, moradora do sítio Baixas, próximo a Maravilha. Ela conhece bem as estradas da região. Me falou que o atoleiro tinha o fundo cimentado, e que seria possível passar pelo lado esquerdo.

Ela se dispôs a ir comigo até o local. Colocou a filha e uma vizinha na garupa de uma moto e me guiou por pouco mais de dois quilômetros. Com suas dicas, passei sem problemas pelo atoleiro.

Nos últimos seis anos, Cícera tem enfrentado dificuldades com a falta d’água. “Quando tá no tempo da seca, nós cavamos um poço para tirar água pros bichos. Pra cozinhar, a gente guarda água da chuva. Quando não chove, tem que ser água do poço, para cozinhar e tomar banho. O Pipa do governo nunca veio aqui. Como demorou muito pra chover, nós compremos um pipa por R$ 300”, diz.

Apesar de morar a menos de 10 quilômetro das águas do São Francisco, ela sabe que vai demorar até poder ser beneficiada pela transposição. Cícera disse que em uma reunião na associação de moradores, no começo deste ano, ela foi informada que a água só será distribuída a partir de 2020.

“Nós esperava para antes. Trabalharam tanto, gastaram tanto, e vai demorar mais de três anos ainda para nós”, diz.

Depois da conversa, segui rumo a Caiçara. Lá, encontrei em casa dona Maria Melo, de 65 anos e mãe de 16 filhos. Ela não esconde a alegria de ver a água franciscana perto de casa, mesmo sem saber quando poderá utilizá-la.

“Nós, mulheres, sofremos muito aqui. Só na minha casa, tenho 10 pessoas. E pra cuidar deles só tem eu. Botei muita água na cabeça. Teve dia que coloquei 10 latas d’água na cabeça, e andava um quilômetro pra ir e outro pra voltar, todo dia de manhã”, lembra.

Perguntada se ainda tem esperança de ter água encanada, ela não vacila. “Se Deus quiser eu vou ver antes de morrer. Se eu morrer, fica pro filhos. Nós qué mais o quê? Só a água. Abrir a torneira e ela vir. Eu tenho fé em Deus, não perdi a esperança”, diz.

Fotografia

 

Continuando o trecho rumo a Sertânia, encontrei três vaqueiros de uma mesma família: Renato Amorim, de 15 anos, Edvão Amorim, de 40, e Daniel Amorim, de 41. Elas criam ovelhas, vacas e bodes na região de Custódia (PE), e estão tendo dificuldades com o rebanho. Com sede, os bichos tentam beber a água do canal, caem e morrem afogados.

“O canal pra gente foi uma riqueza muito grande, porque trouxe água. Mas prometeram que ia cercar. As ovelhas e os bodes tão caindo dentro do canal. Vai tentar beber, aí escorrega e tchau”, diz.

Sobre a possibilidade de a água do São Francisco ser utilizada por eles, a resposta está na ponta da língua de Edvão. “A questão da água, acredito que é assim: quem tem sede, tem pressa. Enquanto esse projeto não chega, vai ter que liberar. Eles mediram cinco quilômetros de um lado e de outro do canal para as casas que vão ser abastecidas. A maior dificuldade foi trazer a água aqui. Não é possível que vai ficar passando uma água dessa sem servir de nada, só para a gente tirar fotografia”.

No caminho até Monteiro, onde pernoitaria, conheci uma das figuras mais interessantes dessa viagem, Dodó, o maior cantor de Sertânia. Mas essa história fica para amanhã.