Enfim, no açude do Boqueirão

Em seu penúltimo dia, a expedição chega à região de Campina Grande, destino final das águas do São Francisco 


Por Bruno Moreno

 

Campina Grande é a maior cidade que visito desde que sai do Recife, há seis dias. Nas outras, após dirigir por uma ou algumas ruas, já estava na estrada novamente. Essa sensação de voltar para o ambiente urbano é estranha. É como se a expedição tivesse acabado. Mas, na verdade, o objetivo principal da transposição está justamente aqui em Campina Grande, onde há um severo racionamento há meses e a esperança está depositada na chegada da água do rio São Francisco.

O açude que abastece a cidade e a região é o Boqueirão, distante 55 quilômetros. Em busca do encontro da água com a terra rachada, parti rumo ao reservatório, no dia menos planejado, mais confuso e menos produtivo da jornada, mas não menos divertido.

Havia estudado intensamente o mapa da transposição até o município de Monteiro, na Paraíba. Mas no caso do Boqueirão só dei uma olhada no percurso. O objetivo, aqui, era chegar ao ponto de encontro da água com o açude. E é claro que todo mundo na região sabe onde fica isso, certo? Errado!

Me deram indicações desencontradas e dei uma volta de mais de 80 quilômetros, em asfalto e terra, à procura desse tão aguardado local de encontro.

Mas foi divertido. No caminho passei por Cabaceiras, conhecida como a Roliúde Nordestina, onde foram gravados filmes e novelas de televisão. Além disso, atravessei de carro sobre as águas do São Francisco, já no rio Paraíba, no município de Barra de São Miguel.

No caminho conheci a família de Ronisvaldo de Souza Santos, 43 anos. Morador da área rural de Barra de Sao Miguel desde que nasceu, ele espera ansioso pela água encanada. Nessa seca que assola o agreste, Ronisvaldo perdeu quase a metade do rebanho, que era formado por mais de 120 ovelhas e bodes.

“A chegada da água encheu a gente de esperança. Daqui pra frente é só riqueza. A vida da minha filha vai ser diferente, porque eu tenho ela hoje pequena, dou estudo para quando ela crescer, se formar, ter uma vida melhor que a minha. Porque a minha foi muito ruim. A gente está fazendo de tudo para que ela tenha uma vida melhor. E a chegada da água vai fazer diferença”, diz.

Continuando o trecho, encontrei Mariluce de Souza Lima, 58 anos, e Maria Gonçalves Cavalcanti, 72 anos, moradoras de Riacho Fundo, município de Barra de São Miguel.

Dona Mariluce conta que quando a água chegou, centenas de cobras que estavam abrigadas na terra rachada começaram a sair para não morrerem afogadas.

Mas ficou mesmo surpresa foi com a qualidade da água. “Nunca vi uma água tão doce como essa! Aqui a água é muito salgada. Agora quero que venha aqui pra casa. Água doce é outra coisa. A gente esperava muito por essa água. Graças a Deus que ela chegou antes de eu morrer”, afirma Maria Gonçalves.

Depois de rodar muito em estradas de terra, pegando indicações de como alcançar o local do encontro da água com o açude Boqueirão, finalmente cheguei a Mirador, o tão procurado local. Subi o drone para fazer umas imagens e, do alto, já é possível ver como a paisagem já foi “esverdeada”, menos de um mês após a chegada da água. Na várzea do Paraíba, o gado faminto que se alimentou exclusivamente de palma e macambira nos últimos anos, aproveita para mastigar como banquete o pasto novinho. Como a luz já estava indo embora, decidi voltar no dia seguinte, o penúltimo da expedição, para fazer mais imagens, antes de ir para João Pessoa ou voltar para Recife. Amanhã conto como foi o último dia da jornada.