Tem que lutar, não se abater


Por Rafael Mendonça e Lauro Mesquita

O MOVIMENTO PAGODE

Almir, Jovelina e Zeca, o trio de frente do pagode dos 80

Não acompanho muito os desfiles das escolas de samba, mas nesse ano confesso que fiquei empolgado com o samba enredo da Vila Isabel homenageando o Noel Rosa. A composição do Martinho da Vila é muito bonita, com uma abertura maior pra um tom melancólico (em menor). Ao mesmo tempo, me questionei muito por que até hoje não foi composto um samba  sobre o pessoal que apareceu lá no bloco Cacique de Ramos no final dos 70, começo dos 80, e que criou um movimento musical gigantesco e muito influente até hoje.E acho que isso tem muito a ver com que esses músicos representam. O samba feito por eles é de um momento em que a indústria da música e o público de classe média deu de ombros pro estilo mais importante da produção brasileira. O samba estava distante do horizonte da juventude Rock in Rio.

Por meio do blog do Pedro Alexandre Sanches, eu acabei descobrindo uma entrevista na revista Fora de Série, do Brasil Econômico, que colocou juntos Paulinho da Viola e Martinho da Vila. A conversa dos dois já vale pelas opiniões sobre o que aconteceu com o carnaval carioca, sobre ser negro no Brasil e sobre o sentido de comunidade no Rio de Janeiro hoje em dia.

A opinião política dos dois sambistas é bem explicitada e em um momento Paulinho da Viola fala sobre a crise criativa que abateu a carreira dele depois do disco Prisma Luminoso, em 83. Pelo pouco que eu entendo do Paulinho, ele provavelmente procurava contemporaneidade pro seu samba tão calcado no choro e nos compositores dos 30 e 40. Ia acabar redescobrindo esse sentido em 89, com o bonito Eu canto samba.

A letra da música título do disco é bem curiosa nesse sentido:

Eu canto samba

Porque só assim eu me sinto contente

Eu vou ao samba

Porque longe dele eu não posso viver

Com ele eu tenho de fato

Uma velha intimidade

Se fico sozinho

Ele vem me socorrer

Há muito tempo eu escuto esse papo furado

Dizendo que o samba acabou

Só se foi quando o dia clareou

O samba é alegria

Falando de coisas da gente

Se você anda tristonho

No samba fica contente

Segura o choro criança

Vou te fazer um carinho levando um samba de leve

Nas cordas do meu cavaquinho”

Com uma identificação muito maior com os terreiros e com um samba que partia das Escolas e das favelas, Martinho nunca parou, continuou sua pesquisa e buscou o sentido da sua música na canção da África e no interior brasileiro, sempre com sucesso de público (Madalena do Jucú, de 1989, não me deixa mentir).

No julgamento do Paulinho da Viola, os anos 80 são erroneamente entendidos como uma época de baixa do samba, por que o investimento das grandes gravadoras estava no rock nacional e em medalhões da MPB. Paulinho na entrevista fala sobre esse período:

Nessa fase, a Jovelina Pérola Negra, o Almir Guineto e o Zeca Pagodinho enchiam ginásios com samba, pagode e ninguém sabia. Só depois a mídia correu atrás. O falecido Agepê fez um compacto Deixa Eu Te Amar (1984) e estourou no Brasil inteiro. Foi um problema sériopor que o investimento estava em outras coisas, Blitz, Lobão… “

É engraçado, mas até hoje os anos 80 são marcados como a década do rock no Brasil e pouco se fala sobre esse samba que tinha se tornado música predominante das periferias de Rio e São Paulo e que foi desembocar no que hoje a gente conhece como pagode.

Em 1984, principalmente, foi um ano em que o samba ganhou uma força inacreditável não só com os nomes citados por Paulinho, mas também com Fundo de Quintal, Beth Carvalho (que havia aderido a Jorge Aragão, Almir Guineto e Luís Carlos da Vila já no seu disco de 1978, No Pagode), Bezerra da Silva (que havia passado do Coco ao samba), Mauro Diniz, Beto Sem Braço, Marquinhos PQD e muitos outros. Além disso, foi o ano de inauguração do Sambódromo no Rio, quando a predominância do carnaval televisivo das Escolas de Samba sufocou boa parte do resto da cultura do carnaval carioca.

De qualquer forma, mesmo pouco reconhecido e absurdamente desprezado pelos roqueiros e medalhões da MPB, o pagode ou sambão viveu uma renovação absurda nos oitenta e arrastavam multidões para seus shows. Era um verdadeiro movimento musical, que dizia muito respeito a intensa movimentação que acontecia com a música e a sociedade brasileira na década que muita gente ainda insiste em chamar de perdida.

Em 1986, todos esses personagens passavam de 100 mil cópias por lançamento, e no Natal Almir Guineto, Zeca Pagodinho, Jovelina Pérola Negra e o grupo Fundo de Quintal cantaram Pagode do Rei, junto com o Roberto Carlos.

Acho engraçado como essa geração de compositores tão rica não seja entendida até hoje no Brasil como uma cena musical forte e muito influente na música popular até hoje. Como mostra o excelente Eu não sou cachorro não, de Paulo Cezar Araújo, a história da música brasileira ainda é contada com um viés de classe muito forte, mesmo quando um estilo parece tão consolidado como o pagode.

Alguns sucessos aí embaixo (cliquem no mais, por que tem mais música). E, por favor, sugiram mais:

 

 

 

 

 

 

 

 

Cultura e outras coisas

Rafael Mendonça

Jornalista, editor do site O Beltrano, editor da extinta revista ‘Graffiti 76% quadrinhos’, editor do Baderna Notícias e cuidador da própria vida.