A macropolítica é rinha de galo


Por João Gualberto

Foto: Lula Marques/ Agência PT

A imprensa teve acesso ao inquérito parcial em que a Polícia Federal conclui que Michel Temer praticou corrupção passiva ao receber propina da JBS por meio do deputado comparsa Rocha Loures. E daí?

Há sobejas provas e declarações, tomadas das delações dos executivos do cartel de empreiteiras, de que a campanha de Dilma e Temer em 2014 cometeu caixa dois e foi beneficiada por abuso de poder econômico na última eleição presidencial. E daí? O Tribunal Superior Eleitoral desconsiderou o teor dos depoimentos colhidos pela PF e absolveu a chapa. Ou, por melhor lógica, para absolver a chapa, o TSE desconsiderou as delações de Odebrecht, Andrade Gutierrez e companhia limitada.

Remanejamentos no orçamento e manobras fiscais com intuito de cumprir metas de superávit e em respeito à Lei de Responsabilidade Fiscal são artifícios comuns do Executivo, e nos três níveis. Apoiar-se nesse argumento para levar um presidente da República eleito ao impeachment é lançar míssil para matar um aedes aegypti – até porque tem bicho muito maior e mais perigoso à solta. Mas e daí?

Desde que a maionese da democracia brasileira começou a desandar (teria sido no ano passado, quando se consumou o impeachment? Em 2015, quando os derrotados no ano anterior a solaparam com artilharia diversa? Em 2014, naquela que talvez tenha sido a mais virulenta e divisora disputa presidencial? Em 2013, com a convulsão das jornadas de junho? Em 2010, quando se deu a primeira eleição de Dilma? Ou em 1988, como há quem afirme, quando promulgamos uma Carta semificcional?), independentemente do marco histórico, nestes últimos meses de agravada instabilidade institucional, a tônica das jogadas no jogo tem sido só uma: evaporaram as noções do legal ou do moral, em contraposição ao ilegal e ao imoral. Assistimos a disputas de puro e simples pareamento de forças. A macropolítica é rinha de galo, mais alheia do que nunca ao que importa à nação. Para House of Cards, “ficção é luxo”.

Perdeu-se o escrúpulo do mise-em-scène nas arenas públicas. Ficou no passado a necessidade de se atuar em respeito ao “imperativo da lei e da ordem”. Extinguiu-se o constrangimento que levava a disfarçar os negócios particulares com o verniz do discurso “em favor do interesse nacional”. A hipocrisia do voto “sim, sim, sim, por Deus, pelo Brasil e por minha família”, despe-se na desfaçatez de se fechar grandes acordos para se “estancar a sangria”.

Pode se dizer que sempre foi assim: benefícios gerais, meu pirão primeiro! Tudo bem, mas assistimos, então, a atores charlatões tentando encenar uma trama tosca de tão sórdida. Quem segue espectador desse novelão que a gangue instituída insiste em manter no ar é inocente como um bebê ou merece migrar para a cena.

Além da absolvição recente da chapa pelo TSE, outra passagem exemplar dessa transparência do jogo ocorreu em dezembro. O Supremo manteve Renan Calheiros na presidência do Senado, contudo, retirando-o da linha sucessória. Isso depois de o senador, denunciado, ter se negado a cumprir liminar de um dos ministros da Corte que determinava o afastamento dele da cadeira. Num embate entre dois poderes da República, venceram os panos quentes, que acabaram por cozinhar mais uma aberração jurídica. Como a que permitiu a Dilma preservar seus direitos políticos depois de condenada ao impedimento por ter cometido crime de responsabilidade.

Os tensionamentos gerados, principalmente, pela operação Lava Jato (que saiu do controle político há tempos) descambou no desnudamento das engrenagens. A necessidade de se encontrar uma tábua a boiar na qual se agarrar no mar alto revelou, claro como nunca, o comportamento mafioso dos comandos partidários, o parasitismo selvagem de certo empresariado, a prostituição do Legislativo, a Justiça agindo como partido, o Executivo paquidérmico engordando e corrompendo para governar para os seus, os veículos de imprensa mentindo em prejuízo ao jornalismo. É a implosão da macropolítica que foi levada, pela gravidade da corrosão das próprias práticas, a se ensimesmar sem máscaras, rebaixada para aquém das instituições, das leis e da moral.

Por mais que se tenha esforçado em negar, pelo menos sobre a política do Brasil, Schumpeter, Mitchels e Faoro tinham razão: uma elite sempre deu as cartas, manobrou, manipulou, forjou climas e acontecimentos. O poder tem donos e são poucos.

Povo? Essa entidade criada pela e para a política é palavra, a ser tão bem empregada como outras tão belas quanto, como liberdade, justiça, progresso. O povo tem que acordar cedo para trabalhar, pagar impostos, ter carro e casa e agradecer a Deus pela vida que leva. O povo vive e não joga o jogo que custeia com o próprio suor. Sequer sabe que existe jogo. Sequer quer saber.

Política

João Gualberto
 

Jornalista, economista e cientista político.