Carrefour Bairro


Por Flávio de Castro

 

Eu moro num bairro que tem Carrefour Bairro e vez ou outra me arranho com a vizinhança quando o assunto é futebol ou politica. Vez ou outra que vou ao mercado onde a velha patota se reconhece e fala alto. Tratam certos funcionários e desconhecidos pela alcunha de “coleguinhas”, marcam seu lugares, senhores de suas cadeiras cativas. Bebem cerveja como se fossem donos dos recintos, fazem piadas  constrangedoras sobre a porção de mandioca para a garçonete que recolhe 10% da generosidade de um homem cordial, que bebe, come um tira gosto e declama suas certezas sem parar.

Este sujeito, o dez por cento, sabe todas as estatísticas, as escalações, os juízes, os corruptos, os vendidos. Sabe tudo e tem amigos importantes. Papai conheceu o Sabino, o vovô recebeu João em sua fazenda. É intimo do Lô, do Bituca, do Toninho Horta. Bêbado amador, pagando 15 reais pela cerveja e 10 pela cachaça, ele joga uma espécie de supertrunfo cívico, cultural e artístico. O sujeito me faz mal, pois lá no fundo acho que me identifico com ele nesse desejo de também ser percebido em acalorada solidão

Subo a avenida de manhã. Atletas, triatletas e patriotas estacionam seus jipes sobre o asfalto. Ao lado do pneu da SUV, numa poça de água parada, amanhecem vazios e um pino de plástico e um preservativo. Cheios de chuva talvez.  A zona sul demora, mas acorda. Acorda e vai pra rua maldizer políticos ou para os bares maldizer amigos ausentes. Isso vem desde o tempo de Ciro dos Anjos, desde Pedro Nava: rodas de chopp e o relato dos malefícios, separações, falências e presepadas de amigos ausentes e falecidos.

– Some não, meu querido.

– Sumo não. E dessa vez vamos parar de dizer que não vamos sumir e sumir de novo!

– Vamos não, abraaaaço!

Uma vez fui a uma festa onde não conhecia ninguém e logo fui procurando por um lugar onde guardar as cervejas que comprei no Carrefour Bairro. Me apontaram um corredor, escuro, vazio que levava a um tanque e a uma máquina de lavar. Caminhei noites e dias para chegar até lá. E foi sobre uma legítima Brastemp de ferro que avistei aquela mulher sentada, fumando um cigarro assim tão distraída . Ela viu meu susto, minha falta de jeito e disparou: “quem procura, acha”. Nunca mais esqueci essa frase porém muitas vezes me pergunto se essa mulher realmente existiu.

Quem procura acha – e não é que achei no meu bairro também? Nas tardes da frangonete, nas manhãs de padaria, encontrei artistas, viradores, matriarcas de ferro e afeto, vagabundos e forasteiros  – encontrei sentinelas.  Essa gente vive em apartamentos próximo ao meu e resistem ao hilotismo, à pasteurização dos hábitos, ao mundo branco iluminado da nova loja da franquia. Gente que está firme no ponto , criando filho, curando ressaca, resolvendo treta, fazendo amigo.

Em plena zona sul, para além dos bares de espetinhos e do cartel das drogarias. Além das noites sem boemia e das tardes no Instagram. Vejo um casal de namorados que sai do Carrefour Bairro carregando sacolinhas com macarrão, cerveja, abacaxi e molho de tomate. Eles sobem a rua de chinelos, tagarelas e famintos. Logo vão comer, beber, transar, dormir e assitir seriado. Acho que vem desde os tempos dos Cláudio Manuel da Costa, o amor feroz que vence o penhasco e se apura na resistência. Este amor nasce aqui na Zona Sul, na barriga de uma avenida circular que contorna a cidade e cerca parte da minha vida.

Naquele bairro careta, desde os tempos do Drummond, ao som  de  panelas e  buzinas,  em meio ao enxame metálico de carros pretos ou prateados, no meio das gentes bonitas e  babás de sulfite… o amor atravessa a rua e segue em frente, como naquele poema em que uma flor nasce no asfalto. Ou nasce do asfalto, sei lá. Esquecidos da vida vão os amantes,  esquecidos do bairro, do poema mas encontrados dentro das mãos dadas, subindo as escadas, dentro das sacolas, dos beijos e da água fervida do macarrão. Quem procura, acha.

Conto-reportagem

Flávio de Castro

Poeta, professor de literatura e funcionário público de si mesmo.