Guerra dos Tronos


Por Flávio de Castro

 

Marilia entrou para o grupo feminista da escola particular onde estuda. Propôs que as minas se reunissem às quintas na biblioteca, sem que nenhum aluno ou professor pudessem participar dos encontros. Em seguida sugeriu ao diretor da instituição que eliminasse as placas de feminino/masculino dos banheiros, alegando que haveria assim mais liberdade, fraternidade e igualdade entre @s alun@s – incluindo aí os do Maternal I e II.

Julieta contestou seu professor que atilou para a condição de mulato (e gago e epilético) de Joaquim Maria Machado de Assis, visto que a palavra deriva de mula e tem conotação racista. A discussão foi tensa e o docente, constrangido, desistiu de explicar o conceito de “mestre na periferia do capitalismo” e de analisar a relação essência versus aparência no conto “o Espelho”, que a estudante ainda não leu.

Beto participou da marcha da Maconha e postou uma foto sua no Instagram fumando uma enorme cigarro de coconha da Serra, comprado das mãos de um menino de 13 anos numa esquina da Rua Capelinha.

Seu Almeida disse que era uma pouca vergonha aquela parada gay em BH, “eles que façam essa baderna em São Paulo”. À noite, depois de beber cerveja e cachaça durante o jogo do seu time “maior de minas”, masturbou-se vendo um vídeo de lesbian teens double dildo em uma página de pornografia que visitava no modo anônimo de navegação.

Tatiana postou que não tinha partido, mas era contra a corrupção. Afirmou que todos os políticos não prestavam. Em seguida, subiu uma foto em que aparecia com o namorado sorrindo na cachoeira particular do seu condomínio em Rio Acima, fazendo um sinal jovial com a mão (polegar e dedo mínimo estendidos), além de inclinar o rosto e esticar os lábios que brilhavam sensualmente com o batom comprado no Free Shop de Barcelona no penúltimo mochilão.

Leonardo andava de bicicleta nas ribanceiras do São Pedro e se sentia indignado com os memes a favor do Bolsonaro que via em sua timeline. Gritou “fora Temer” num show que viu no Palácio das Artes e confirmou que tinha interesse num evento chamado ‘Jogral Contra o Golpe’. Sexta-feira passada se reuniu com os amigos em Santê, vestindo uma camisa do EZLN que comprou pela Internet e pagou com Pay Pall.

Daniela dizia que nunca tinha grana, reclamava da tarifa dos ônibus e dizia que qualquer meia hora no boteco não saía por menos de 50 reais, fora o preço exorbitante da gasolina nos postos da Zona Sul. Ficou triste quando viu que esqueceu seu Rayban Celebrities no metrô assim que desembarcou em Alexander Platz para assistir a um festival de música eletrônica em Berlim.

Felipe escrevia comentários nos sites dos jornais da cidade. Era sempre articulado e disposto a retrucar qualquer marxista que encontrasse pela frente. Quando titubeava nos argumentos, afirmava que o interlocutor recebia salário dos petistas para fazer propaganda venezuelana e lavagem cerebral pela internet.

Ronaldo e João fizeram um esforço danado pra trazer aquele guitarrista incrível para tocar seu trabalho autoral em uma casa de shows da Savassi. O evento deu prejuízo, afinal estava frio e o ingresso custava 30 reais, caro demais para quem já pagou quase 100 pilas com carteirinha falsificada para ver um show do tributo aos Beatles, Deep Purple ou algo assim naquele imenso auditório anexo ao principal shopping da Zona Sul.

Em uma coisa, porém, todos concordavam: a nova e imperdível temporada de Game of Thrones começaria em julho, e sem ela a vida não valia a pena de ser vivida naqueles idos de 2017.

Conto-reportagem

Flávio de Castro

Poeta, professor de literatura e funcionário público de si mesmo.