Mississipi em Chamas


Por Flávio de Castro

Sábado de carnaval e a cidade se sacode pelos quatro cantos. Logo cedo noto a movimentação na rua Grão Mogol: viaturas, banheiros químicos, grades de isolamento, food-trucks e o “um, dois, teste” da interminável passagem de som. Há algo acontecendo, oxalá seja dia de revolução. O burburinho vai aumentando sem o prenuncio de um surdo dobrado, é claro, mas o ar úmido de chuva indica que hoje o bicho vai pegar.

Estou hospedado ao lado da algazarra e saio para averiguar o fuzuê momístico que ensaia começar. Dobro a esquina e adentro ao quarteirão fechado com exclusividade para a farra dos moradores locais. Nunca esquecerei este acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Os dois únicos negros que eu vejo no carnaval de rua do Sion são seguranças e vestem os ternos escuros de uma empresa privada (lembremos que faz 30 graus em BH e pra alguns não tem cerveja, é só chuva e suor). O Dj alterna marchinhas antigas com o melhor do sambalanço remixado: Música Turística de Brasil, hits de um verão dançante e tropical. A pose típica do disc jóquei, com o pescoço devidamente entortado sobre o fone de ouvido, se faz deveras caricata debaixo da armação de lona que cobre o valioso equipamento de som.

Os foliões chegam, purpurinados e bronzeados, configurando aquilo que os flyers de festas universitárias chamam de “gente bonita”, ou seja, gente magra, jovem e branca. E os foliões chegam com sede e fome à festança, ávidos para consumir. A produção do evento já esperava por isso – uma clientela exigente e entusiasmada. Daí a oferta de pizza artesanal (10 reais a fatia), picanha “steak” artesanal, cerveja, obviamente, artesanal (10 a 15 reais o copo) além de uma cama elástica para a diversão saltitante da criançada. Nenhum camelô, nenhum punguista fantasiado de folião fantasiado. Não tem cachaça, não tem arrastão, não tem caco de coração varrido junto com o confete.

Ouço dizer que na noite anterior, no centro da cidade, um renomado bloco reuniu centenas de milhares de pessoas, mas o que vejo aqui são cerca de 300 pessoas, como se fossem escolhidas a dedo por um promoter elitista ou um colunista social de província. Imagino que um dia a festa será feita na famosa rede de drogarias, com sua luz branca higienista, seus suplementos alimentares, sua assepsia absoluta e a grande variedade de produtos para o bem estar do seu pet.

Quando saio da muvuca vejo uma negra vestida de bombeiro, mas não é fantasia. A mulher está trabalhando para garantir a segurança dos foliões caucasianos. E quando ela passa junto aos dois seguranças, evoca-me a memória de Xico Rei, Zé Alfaiate e Xica da Silva.

Porque foi carnaval no sul dos Estados Unidos.

Conto-reportagem

Flávio de Castro

Poeta, professor de literatura e funcionário público de si mesmo.