Ney Lima, a afronta que vem do sertão

Vencendo o preconceito, a vida dura e as barreiras. Ney Lima dá uma lição aos que não acreditaram


Por Clarissa Carvalhaes

De Nova York

Publicado em -2/05/2018

Reprodução Facebook

Nem a miséria do sertão, nem o racismo velado ou escrachado, tampouco a homofobia foram capazes de ofuscar o brilho de Claudinei Lima dos Santos, que escolheu, cá nas redes sociais, ser só ‘Ney Lima’.

Parte da história do jovem de 22 anos se assemelha a de muitos outros injustiçados sociais pelo país, não fosse a perseverança e o desfecho de sucesso: com mais de 1 milhão de seguidores no Instagram, Ney Lima arregaça as mangas e já planeja concretizar sua sonhada turnê pelo Brasil com um show de stand up. Mas, para entender Ney Lima inteiramente, não se pode perder a perspectiva dos caminhos que o trouxeram até aqui.

Nascido em Serrinha, interior da Bahia, Ney foi criado somente pela mãe, Maria de Lourdes Cerqueira, hoje com 52 anos. Até bem pouco tempo, antes do sucesso de Ney nas redes, Maria fazia faxina em casas de família para conseguir sobreviver na roça. A casa, de chão de terra batida e sem banheiro, vai receber agora uma grande reforma – doação feita por dois seguidores.

Embora Ney viva na mesma cidade que o pai, o contato entre eles é raro. “Quando ele saiu de casa, eu tinha 10 anos. No início me visitava com frequência, mas com o passar dos anos nos perdemos. Depois de mim, ele teve outros 12 filhos, mas também não tenho contato com nenhum deles. Quando a gente se cruza pela rua até se cumprimenta, mas a verdade é que somos todos estranhos”.

A orfandade de pai e a batalha solitária da mãe permitiram com que Ney estudasse até o Ensino Médio. “Depois precisei trabalhar e comecei como catador de reciclados. É isso o que muita gente aqui da cidade acaba fazendo. Eu trabalhava durante o dia e também a noite porque só assim dava pra recolher material suficiente para ganhar algum dinheiro”. Mas apesar das dificuldades, Ney garante ter sido “muito feliz no lixão, de verdade”.

Foram dois anos como catador de reciclados, até ir embalar compras num supermercado. Depois foi capinar lote, mas não levava jeito. Tentou a sorte em Curitiba, onde ficou três meses como balconista e voltou para o sertão. “Daqui não saio mais, não”.

Voltou para ser empregado doméstico em um sítio. Eram mais de 10 horas de trabalho diário para um salário de R$ 400,00 mensais. “Eu levantava às 3h30 para embalar leite, depois arrumava o quintal, cozinhava, lavava, passava. Até o carro deles eu lavava. O sítio era bem perto da minha casa, mesmo fiquei seis meses sem ver minha mãe. Esse sim, foi um tempo muito difícil”, recorda.

E foi lá, nos intervalos entre uma tarefa e outra, que Ney começou a fazer vídeos e fotos mostrando seu dia a dia no sertão. Os posts feitos entre vacas, cachorros, galinhas e caminhões que levantam poeira nas estradas de terra ganharam simpatia e seguidores. Rir da própria miséria; lavar a cabeça e as roupas na bacia de alumínio; mostrar que não tem banheiro: “a gente corre pra fazer no mato mesmo, minha gente! A maioria das pessoas daqui faz assim”. Ney esfrega a dura realidade na nossa cara e depois pega carona em carroça. Fala da vida dos outros e de si. Dos calotes dos vizinhos. Da cadela no cio. Ri da mãe e com a mãe. Não leva desaforo para casa. E a gente fica ali assistindo tentando entender como ele consegue tanta internet.

Ser gay, negro e nordestino fizeram Ney Lima chegar aonde está: pra conseguir esta entrevista foi preciso negociar com a assessoria de imprensa, que agora ele tem. “Eu comecei a ficar mais conhecido depois de um vídeo que eu fiz com minha mãe na caixa d’água e que viralizou. Naquele momento, eu tinha 34 mil seguidores no Instagram. No dia seguinte, amanheci com o dobro de seguidores. Hoje esse mesmo vídeo tem mais de 10 milhões de visualizações”.

Reprodução Facebook

Preconceito

Basta assistir a um vídeo do Ney para querer ver outro, e depois o próximo. Não dá pra ficar indiferente ao carisma de Ney e da sua mãe, que vez por outra aparece em seus vídeos. “A internet está mudando a minha vida. Graças ao retorno das publicidades que eu tenho feito pude não apenas deixar o trabalho de doméstico como fazer com que minha mãe também parasse com as faxinas. Sempre fomos parceiros, só eu e ela, um ajudando o outro. Isso é o mínimo que posso fazer por ela”.

Apesar do sucesso, Ney lamenta os ataques preconceituosos. “Ah, eles vem de todos os lados do país, afinal eu sou todas as minorias que podem existir no Brasil, né? Imagine só como uma bicha (sic), negra e ainda por cima do sertão pode incomodar. Claro que, às vezes, as ofensas me deixam triste, mas elas não me abalam, não. Eu queria que essas pessoas se colocassem no lugar do outro antes de escrever tanta bobagem, até porque eu só quero transmitir toda a alegria que estou sentindo. Eu sou muito grato por cada seguidor, por cada mensagem de esperança que recebo”.

Aos comentários agressivos, às vezes fica em silêncio, noutras responde da melhor maneira possível. Chama a mãe pra piscina improvisada na caixa d’água, abre um espumante de R$ 8 reais e brinda aos risos. “Se você dizia que a gente estava mal, imagina o que é estar bem”. E rimos todos. Muito.

Reprodução Facebook

PERFIS OFICIAIS

INSTAGRAM

https://www.instagram.com/ney.lima/

FACEBOOK

https://www.facebook.com/neyyliima/

VÍDEOS

23 DE MAIO DE 2017

pra você que me odeia ahahahahah  – 10 MILHÕES

https://www.facebook.com/neyyliima/videos/1389156604507869/

16 DE MAIO DE 2017

Marka aqui aquela amiga que você ainda vai manda se arrombar, quando ela corrigir seus erros se português  – 2,3 MILHÕES

https://www.facebook.com/neyyliima/videos/1382199465203583/

19 DE ABRIL DE 2017

“Ou me engole, ou vai ficar passando mal monamour ”  – 2,8 MILHÕES

https://www.facebook.com/neyyliima/videos/1353438058079724/

6 DE JUNHO DE 2017 

Marka aqui aquela amiga, que leva gaia e ainda continua com o boy – 1,1 MILHÃO

https://www.facebook.com/neyyliima/videos/1404358159654380/

10 DE JANEIRO DE 2018

Garotas Loreal – 1,6 MILHÃO

https://www.facebook.com/neyyliima/videos/1625656514191209/

2 DE JANEIRO DE 2018

Vai maladra – 3,7  MILHÕES

https://www.facebook.com/neyyliima/videos/1612310238859170/

DEZEMBRO DE 2017

Pq hoje é dia de brinda a lágrima das inimigas – 23 MILHÕES

https://www.facebook.com/neyyliima/videos/1565915870165274/