Um bairro chamado Saudade


Por Flávio de Castro

Saindo do centro, o 9801 chama a atenção pela enorme palavra Saudade projetada em seu visor de led. Ele nos leva ao bairro que se formou junto ao cemitério homônimo, fundado em 1942 pelo então prefeito Juscelino Kubitschek, cuja intenção era aliviar o fluxo de enterros no cemitério do Bonfim. Inclusive foi feito um trato: quem morresse do lado leste da Avenida Afonso Pena seria enterrado no Saudade, e quem morresse no lado oeste descansaria na paz do Bonfim. As más línguas já diziam – “defunto pobre pra cá, defunto rico pra lá”. E o tradicional cadáver mineiro fazia o possível, por meio das boas relações dos vivos, para decompor-se entre os vermes aristocráticos do lado oeste, é claro.

O cemitério, no entanto, não havia ainda sido inaugurado. Foi um desses momentos inexplicáveis em que as pessoas se negam a morrer – e a obra aguardava ansiosamente por um ilustre defunto que iniciasse os seus ofícios fúnebres e a sua razão primordial de existir. Passado o marasmo de toda uma vida, finalmente o cemitério recebeu sua primeira e definitiva hóspede, ainda que não tivesse nada de ilustre, senão uma sina pitoresca: senhora Domingas Antônia, andarilha da região leste, apitou, bateu as botas, subiu, partiu dessa pra sei lá onde e estreou a primeira sepultura do cemitério na condição de indigente, frustrando aqueles que ansiavam pelo falecimento alguma celebridade local para o abrilhantar o evento.

Moradores ouvidos pelo O Beltrano reclamaram destes tempos remotos e trágicos. O cemitério, cuja planta remete ao formato de um caixão, não possuía grades ou muros em seus primeiros anos de existência. Imaginem só o transtorno causado pelas chuvas e temporais : a água revolvia as tumbas e arrastava pelo bairro crânios, escápulas, costelas e fêmures recém saidos da frialdade inorgânica da terra para espalharem-se lúgubres por todas as ruas do bairro com o afã das enxurradas. Passado algum tempo, o cemitério foi cercado (com as antigas grades do Parque Municipal) e recebeu sua primeira carcaça-celebridade: justamente o senhor Geraldo Rieiro, motorista particular do governador fundador do cemitério, que veio a falecer no fatídico acidente automobilístico que abalou a história do país. Ironias da vida e da morte, mais do que supõe nossa vã filosofia de província.

O bairro que cerca o cemitério é uma síntese da BH profunda. Subúrbio entregue ao sol, de forte vocação boêmia, seu populacho diuturno é sedento e heterogêneo. Entre músicos da Filarmônica, serventes de pedreiro, tipógrafos, físicos, polícias aposentados ( são tantos !), vapores e andarilhos, tive a chance de conhecer o senhor “Dentinho de Ouro”, 75 anos e quase quatro décadas como coveiro. Sujeito simpático e alegre, recusou um gole de cachaça e me alertou que em fevereiro morre muita gente, mês em que o seu trabalho não vencia, sobretudo quando as chuvas de verão faziam da necrópole um escarcéu apocalíptico e macabro. No entanto, para o meu alívio, ressaltou que Agosto é ainda pior. Quem tem juízo, deduzi, aproveita o Carnaval. Quem não tem espera pelo cachorro louco.

Quando o coveiro se retirou, perguntei a um conhecido a razão do apelido, visto que o tal profeta dos funerais já não possuía vários de seus dentes originais, quanto menos um do precioso metal. Meu interlocutor sorriu sem sorrir e atestou minha ingenuidade desavisada de turista da zona sul: das sepulturas reviradas pelas intempéries das águas saiam caninos e molares reluzentes que valiam 30 reais no mercado negro do bairro. Isso mesmo – ouro no dente é moeda corrente. Surpreso com o brilho macabro da resposta, lembrei-me imediatamente de Lima Barreto, João Antonio, Wander Piroli e outros escribas que só abandonaram o corpo-a-corpo com a vida depois que nem corpo tinham mais, senão a vida que ficou escrita. Propus então um brinde à patuleia do bairro, mas a palavra “saúde” sequer foi dita ou ouvida quando passou o ônibus 9801, que subia a Rua Padre Feijó trazendo gente viva para o Saudade.

Conto-reportagem

Flávio de Castro

Poeta, professor de literatura e funcionário público de si mesmo.