Estoura guerra de facções em SP

Grande imprensa e governo Alckmin se recusam a admitir a existência do conflito, mas grupos de criminosos rivais estão matando membros do PCC e seus familiares


por Lucas Simões

 

Sob o silêncio absoluto da grande imprensa, uma guerra entre facções criminosas estourou em São Paulo na passagem do ano, levando terror às favelas e áreas da periferia da cidade e deixando um rastro de torturas e mortes, incluindo de mulheres e pessoas sem ligação direta com o tráfico de drogas.

Há duas semanas, membros do Primeiro Comando da Capital (PCC), do Comando Vermelho (CV), da Família do Norte (FDN) e do Comando Revolucionário Brasileiro da Criminalidade (CRBC) iniciaram uma violenta disputa pelo controle do tráfico na capital paulista. Em contagem conservadora (ainda não existem dados oficiais), o confronto provocou pelo menos 15 mortes até o momento. Uma guerra ignorada pela imprensa, polícia e responsáveis pela segurança no Estado, que tende a se aprofundar e que se relaciona diretamente com a crise carcerária e política que levou às recentes carnificinas em presídios de outros Estados, como Goiás, Roraima e Amazonas.

Apesar de a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP) negar a existência de uma guerra entre facções criminosas, centenas de relatos de ameaças, torturas e assassinatos começaram a pipocar pelo WhatsApp, dias antes do Ano Novo. Em uma das gravações, atribuída a um integrante do PCC, um homem diz: “Fala para os meninos ficar ligeiro na rua aí. Não é só aqui na Zona Sul, não, é na capital de São Paulo inteira que os caras tão vindo pra pegar os caras do PCC tudo e todos que tiver na rua (sic). Mataram cinco caras do PCC e os cara tá bravo (sic). Os cara decretou uma guerra que não tem hora pra acabar”.

Em áudios atribuídos a integrantes do PCC, há relatos de torturas de gerenciadores de bocas de fumo. “Avisa os amigos aqui que os FDN (Facção do Norte) acabou de pegar os moleque, arrancou os dedos dos moleques, nós tá aqui agora!”. Além disso, vários muros das periferias paulistanas também foram pichados com ameaças de morte. Segundo os relatos, foram registrados assassinatos em regiões como Campo Limpo, Cohab Tiradentes, Pirituba, Diadema, Brás, Baixada Santista, Guanhanases, Cidade Jardim, Canindé e Guarulhos – todas regiões periféricas ou metropolitanas da cidade de São Paulo.

Para o historiador Vagner Marques, autor do livro “Fé & Crime: Evangélicos e PCC nas periferias de SP”, e que pesquisa o PCC desde 2006, as recentes mortes nas periferias de São Paulo estão ligadas diretamente à expansão nacional do PCC e os consequentes conflitos com facções rivais regionais, como a Família do Norte (FDN), facção que comanda o tráfico de drogas no Amazonas e outros Estados da região Norte, o Comando Revolucionário Brasileiro da Criminalidade (CRBC), de São Paulo, e o Comando Vermelho (CV), originário do Rio de Janeiro.

 

 

O massacre no Complexo Penitenciário Anísio Jobim, em Manaus, em janeiro do ano passado, acirrou ainda mais essa rivalidade, após a FDN assumir a autoria brutal de 56 assassinatos no presídio, todos de membros do PCC, o que fez a facção nortista ganhar notoriedade nacional. Além disso, o secretário da Segurança Pública e Administração da Penitenciária de Goiás, Ricardo Balestreri, admitiu que as rebeliões que resultaram em nove mortes em um presídio da região metropolitana de Goiânia, no último dia 2 de janeiro, foi motivada pela guerra entre PCC e CV.

“Após PCC e CV romperem relações ano passado, devido a disputas pelo controle do tráfico em regiões fronteiriças do Brasil, a chamada bandeira branca, que garante paz entre as facções, foi abaixada. Isso se viu em Manaus, se vê em Goiás, que também teve mortes. Uma das motivações é que o PCC se expandiu demais pelo Brasil e acabou deixando um buraco aberto nas periferias de SP, lugar que sempre esteve presente desde a década de 1990. Então, começaram a questionar a hegemonia do PCC e está havendo guerra”, diz Vagner.

Ao verificar essa fragilidade, as facções FDN, CRBC e CV se uniram para tentar tomar áreas de controle do PCC em São Paulo. Como o PCC decidiu resistir e vingar os assassinatos, as facções rivais apelaram para ataques a familiares de membros do Primeiro Comando da Capital. Das 15 vítimas contabilizadas até agora, pelo menos três eram esposas de membros do PCC. “Pelos relatos, o PCC tem resistido aos ataques e contra-atacado. Por isso, a FDN, principalmente, partiu para a ofensiva de assassinar as chamadas ‘cunhadas’, que são as mulheres (de membros do PCC, que se chamam de ‘irmãos’). Em dias de visita aos presídios, que é quando as esposas vão, temos registros de assassinatos”, completa Vagner.

A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP) foi questionada sobre os assassinatos, mas negou que haja uma guerra entre facções na cidade e na região metropolitana. Nos últimos anos, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) tem se gabado da redução dos índices de homicídio, por ter atingido o menor patamar de assassinatos dos últimos 20 anos – uma redução dos 33,3 homicídios a cada 100 mil habitantes em 2001 para 7,56/100 mil em 2018. A SSP de São Paulo ainda não divulgou o número de homicídios de dezembro de 2017 e janeiro de 2018, justamente o período de acirramento dos conflitos entre as facções criminosas em São Paulo.

Em um contraponto às políticas de segurança pública da gestão Alckmin, o historiador Vagner Marques ressalta que a diminuição da taxa de homicídios em São Paulo, no período mencionado pela SSP, entre 2001 e os dias atuais, se deve principalmente a ação do próprio PCC – e não necessariamente pelo investimento em segurança. “Justamente nesse período, quando o PCC já estava estabelecido nas periferias de São Paulo, se instaurou o lema ‘não matarás’, porque não havia mais necessidade. Daí veio o processo de paz. Antes, na década de 90, já tinham tido muitas mortes, com o PCC expulsando facções rivais com o lema ‘é pela paz que o comando faz a guerra’. Agora, o cenário mudou. Mas a Secretaria de Segurança Pública se recusa a admitir”, disse Vagner.