Uma mensagem de Flávio Henrique

O jornalista Luciano Alkmim fez para O Beltrano aquela que, muito provavelmente, foi a derradeira entrevista concedida pelo compositor e ex-presidente da Empresa Mineira de Comunicação, Flávio Henrique, morto no último dia 18 por febre amarela


Por Luciano Alkmim

reprodução/facebook

Não gosto de escrever textos na primeira pessoa, mas um acontecimento que mexeu com todo o meio cultural de Minas Gerais me obriga a fazê-lo.

No dia 18 de janeiro, pela manhã, recebi uma mensagem de um amigo avisando da morte de Flávio Henrique, decorrente da febre amarela que ele havia contraído poucos dias antes. Era bem cedo, eu estava com minha família em um apartamento de praia e assim que li as palavras de Ernesto Azevedo fui até à varanda do apartamento ver a vista. O mar enorme e a Ilha Grande à minha frente me pareceram, naquele momento, frágeis, com alguma data para acabar.

Estávamos hospedados em casa de amigos queridos que também se impressionaram com o ocorrido e entre algumas conversas me lembrei que tinha comigo uma entrevista inédita do Flávio Henrique. Muito provavelmente a última concedida por ele.

Quase no fim do ano passado, estava preparando uma matéria para O Beltrano sobre a Empresa Mineira de Comunicação (EMC) e as emissoras que a compõem. Acontece que alguns contratempos me fizeram adiar o término da matéria e sua publicação ficou para 2018. O próprio Flávio me cobrou o texto algumas vezes, um pouco frustrado com a demora.

Revendo a troca de mensagens com ele, entendo perfeitamente seus motivos para querer uma matéria mais aprofundada sobre o trabalho da atual gestão da EMC, da qual ele era presidente. Talvez eu devesse ter sido mais eloquente nas minhas respostas, mas isso não importa mais.

O que pretendo aqui é publicar sua entrevista na íntegra sobre a EMC, a Rede Minas e a Rádio Inconfidência. Em outro momento, em breve, proponho fazer a matéria completa que estava sendo trabalhada, sobre tudo o que está sendo feito lá.

As perguntas feitas ao Flávio, que era antes de tudo compositor e artista, foram técnicas e as respostas atenderam a solicitação de serem bastante objetivas. Não havia como prever a tragédia que se abateria em poucas semanas.

De qualquer maneira, o que fica é a visão de Flávio Henrique sobre o trabalho que estava e está sendo desenvolvido na EMC. É um registro para os que trabalharam com ele e que continuarão esse percurso importantíssimo para a cultura de Minas Gerais. Ficam também para telespectadores e ouvintes das programações da Rede Minas de Televisão e da Rádio Inconfidência as propostas que lá estão sendo colocadas em prática.

Para amigos e familiares ficam as palavras do Flávio Henrique que coloco na íntegra, sem nenhuma interferência. Para mim fica a vontade de discutir outras matérias com ele e lhe arrancar mais algumas gargalhadas. Abraço a todos.

Como vai funcionar a Empresa Mineira de Comunicação? Ela já tem um estatuto?

O estatuto da EMC está em fase final de redação. Ele foi concebido de acordo com a nova lei das estatais em conjunto com a Secretaria da Fazenda, Seplag, Casa Civil e EMC. Assim que o texto final estiver atendendo a todas as demandas, seguirá para assinatura do governador. Falta pouco.

Como ficam os regimes contratuais dos funcionários? Vai ter uma isonomia entre os funcionários da rádio e da TV?

A rádio já se passou a chamar EMC, para os funcionários da Inconfidência nada muda. Os servidores da Fundação Rede Minas estarão lotados na Secretaria de Cultura e cedidos à EMC, a pontuação dos cargos comissionados da TV permanecerá a mesma. As diretorias das duas empresas é que serão reduzidas assim que o processo de fusão se formalizar. A isonomia é um problema pois depende de alterações nas leis. Redução de carga horária no momento é entendido como aumento salarial, o que está terminantemente vetado pela Lei de Responsabilidade Fiscal. Os regimes de trabalho são diferentes (CLT e estatutário). Essa isonomia transcende o poder do gestor, precisará haver uma construção envolvendo sindicatos, judiciário e outras áreas do governo para equalizar essa questão. Vejo isso como o maior desafio da estruturação da EMC.

A EMC terá um Conselho Curador? Como serão escolhidos os integrantes ?

Sim. Doze integrantes, 6 do poder público indicados pelas respectivas entidades e 6 da sociedade civil advindos de setores ligados às atividades da empresa (sindicatos, arte, cultura e jornalismo). Essa escolha de representantes da sociedade civil deve ser debatida com o setor através de uma chamada pública que ocorrerá oportunamente.

Como vai acontecer a sinergia entre a rádio e a TV?

No primeiro momento, a ideia é fundir o setor meio, administrativo, jurídico, logística e técnica. No segundo momento os setores finalísticos devem se aproximar para otimizar a geração de conteúdo tanto jornalístico quanto de produção e programação geral.

Como está a relação da rádio com a TV?

A vizinhança é muito recente, mas nesse primeiro momento vários profissionais tem mostrado interesse em atuar nas duas frentes. Outra parte dos funcionários condiciona essa aproximação a uma isonomia de carga horária e salário.

Qual será o papel da EMC no contexto da produção cultural?

Teremos uma empresa de comunicação pública mais forte, relevante e eficiente. As instalações são ótimas, e a otimização dos resultados são uma simples questão de tempo. Há de se gerir essa fusão com eficiência para colher os frutos com maior rapidez.

Há um projeto para a EMC nessa gestão?

Essa gestão tem como projeto principal iniciar essa fusão se debruçando sobre os processos burocráticos ( que são muitos) e concluir a mudança física das empresas. A rádio já está em pleno funcionamento no CCIF, a TV ainda está concluindo processos de aquisição e terminando os ajustes técnicos para que 100% dos programas sejam produzidos, gravados e editados na nova sede. Isso ainda está em fase de implantação, mas tudo correndo dentro do planejado.