A desconstrução do intelectual

A autoficção ‘A Destruição de Bernardet’ trata o envelhecimento sem idealizações


Por Petra Fantini

Publicado em 30/08/2018

Divulgação

Produzido em 2016, o filme A Destruição de Bernardet, que transita entre o documentário e a ficção para abordar a vida e a obra do crítico de cinema Jean-Claude Bernardet, estreia amanhã (30/08) em Belo Horizonte e outras capitais. Fugindo do modelo tradicional de exaltação da personalidade por demanda do próprio Jean-Claude, o tema central da obra é o envelhecimento. Aos 80 anos, quase completamente cego, o francês radicado no Brasil critica a indústria farmacêutica, fala da experiência de virar ator aos 70 anos e sobre morte e suicídio.

Ele também é romancista e foi roteirista de filmes importantes como O Caso dos Irmãos Naves, de Sérgio Person. Nos anos 1970, atuou em pequenos papéis nos filmes Orgia ou o Homem Que Deu Cria (1970), único filme do escritor João Silvério Trevisan, e Ladrões de Cinema (1977), de Fernando Coni Campos. Mas foi depois dos 70 anos de idade que passou a se dedicar mais à atividade. Em entrevista ao O Beltrano, o crítico contou a razão: “Comecei a atuar mais porque estou envelhecendo”.

Ele e o irmão Jean-Pierre, que morreu recentemente, sempre conversaram sobre a importância de se reinventar e como “o envelhecimento não poderia ser apenas uma elongação do que já havia sido vivido”. Jean-Pierre era engenheiro e passou a mexer com artes plásticas, enquanto Jean-Claude, um dos principais críticos de cinema do país, passou a se dedicar mais à atuação. “Queria alguma coisa que me desafiasse, que fosse além dos meus limites. Eu também sou uma pessoa bastante fechada, tímido. Então, algo que exigisse de mim, que me transformasse. A ideia de ir além das próprias fronteiras é uma coisa fundamental pra mim”, diz.

Divulgação

A autoficção foi a linguagem escolhida por Jean-Claude Bernardet para falar de si mesmo, desde o livro autobiográfico Aquele Rapaz (1990), passando mais recentemente pelos trabalhos como ator nos filmes de Cristiano Burlan, Kiko Goifman e Tarciano Valério, até chegar ao A Destruição de Bernardet. Apesar das experiências como ator, o francês — que nasceu na Bélgica por acaso durante um estágio de seu pai e se mudou para o Brasil aos 13 anos —, se consolidou de fato na crítica de cinema, considerado hoje o maior nome da área vivo no país.

Jean-Claude formou-se crítico graças à influência de Paulo Emílio Sales Gomes, um dos fundadores da crítica do cinema moderno no Brasil. “Jean-Claude tem alguns trabalhos fundamentais, sobretudo como alguém que tentou compreender o cinema moderno no calor da hora”, diz o cineasta Ewerton Belico. Seus dois trabalhos principais, Brasil em Tempo de Cinema (1967) e Cineastas e Imagens do Povo (1985), revelam o traço importante, segundo Ewerton, “de um pensador engajado politicamente, de esquerda heterodoxo, original, frequentemente dissidente em relação à discussão majoritária da elite cultural de esquerda brasileira”.

Sua desarmonia em meio aos intelectuais se revelou nas críticas que fez ao modelo de engajamento adotado por cineastas de esquerda já na época do Cinema Novo: “Em que medida o movimento conseguia realizar sua pretensão de representar o povo?”, Jean-Claude se perguntava, e ainda reforça essa desconfiança em relação ao cinema político feito em 2018, principalmente aquele baseado em materiais de arquivo.

“Muitas coisas que eu vi [recentemente] acho insuficientemente politizadas. As pessoas acham que estão fazendo filmes políticos e eu acho que é um pouco uma ilusão”, diz o crítico. “As pessoas me jogam ovos quando eu falo isso, mas é o seguinte: na faixa cultural em que atuamos, estamos totalmente dependentes de dinheiro estatal por causa dos editais. Ao mesmo tempo, essa faixa cultural está totalmente contra o atual governo, contra o neoliberalismo. Porém, não deixa de depender. Então, a pergunta que me faço é de que forma isso se reflete no cinema?”

Muitas vezes, esses cineastas acreditam que os materiais de arquivo falam por si mesmos. Esta linguagem é utilizada, por exemplo, com materiais de blogs de extrema-direita, como no filme Intervenção – Amor não quer dizer Grande Coisa (2017), de Tales Ab’Saber, Rubens Rewald e Gustavo Aranda, e de movimentos de rua do período entre 2013 e 2014, como no Operações de Garantia da Lei e da Ordem (2017), de Júlia Murat e Miguel Antunes Ramos. “É muito difícil você apresentar materiais de movimentos de rua sem tentar uma análise para tornar esse material significativo”, avalia Jean-Claude, destacando que o uso de entrevistas poderia fazer essa análise. Porém, esta é uma linguagem considerada ultrapassada e mais televisiva do que cinematográfica.

Divulgação

“Quando eu vejo tantos trabalhos feitos com formas de linguagem ambíguas, alusivas, etc, eu me pergunto se a postura política não está justamente nessa linguagem. Para não assumir uma posição mais definida”, diz. Para o crítico, esta é uma maneira dos cineastas falarem para o próprio público, isto é, “pregar para convertido”.

Bernardet estende essa análise às candidaturas de Marcelo Freixo (Psol) para a prefeitura do Rio de Janeiro, em 2016, e de Guilherme Boulos (Psol) para a presidência, em 2018. Ambos tentam combater candidatos conservadores, Marcelo Crivella (PRB) e Jair Bolsonaro (PSL), com “papos humanistas” e discussões sobre homofobia, racismo e machismo, sendo que os eleitores destes candidatos não se importam com isso, segundo avalia Jean-Claude.

Além da crítica que faz à esquerda, Bernardet reforça desde os anos 60, “de forma bastante combativa”, que intelectuais, artistas e escritores não são os donos da cultura, tendo defendido ao longo da vida desde comédias populares, no jornal Opinião — que circulou de 1972 a 1977 —, até a comédia De Pernas pro Ar 2 (2012), e se diz muito atacado por isso. Para ele, o Big Brother é um fenômeno cultural extremamente expressivo que trata a realidade como representação, que é um tema da sociedade. A ideia toda do reality show, diz, é uma das estéticas principais de hoje. “Eu detesto essa coisa de que a cultura seja só a cultura alta. Não, tudo é cultura”, afirma.

Assista ao trailer de A Destruição de Bernardet (2016):

https://vimeo.com/286177153