No país da farsa

Homero diz que o quadro ‘Independência ou Morte’, de Pedro Américo, é plágio descarado de obra do francês Jean-Louis Ernest Meissonier


Por Homero Gottardello

Friedland”, do francês Jean-Louis Ernest Meissonier

Em setembro do ano passado, o ‘O Beltrano’ mostrou para seus leitores que o Hino Nacional, um dos Símbolos Brasileiros, é na verdade um plágio, uma colcha de retalhos de peças operísticas e de câmara, ‘costurada’ pelo compositor da música, Francisco Manual da Silva, copista e maestro palaciano de D. Pedro I.

Agora, nossa investigação sobre as artes do período pré-republicano tem o desprazer – isso mesmo, o desprazer – de revelar que, para além do Hino Nacional, o quadro que retrata o ‘Grito do Ipiranga’ também é uma imitação. Considerada a representação definitiva do instante que o país rompeu o subjugo colonial, o quadro de Pedro Américo de Figueiredo não passa de uma cópia de “1807, Friedland”, do francês Jean-Louis Ernest Meissonier.

Na tela original de Meissonier, concluída em 1875, o Imperador Napoleão Bonaparte aparece em um ponto elevado do campo de batalha, cercado pela cavalaria do exército francês, que comemora a vitória sobre os russos. Em termos técnicos e estéticos, não há diferença entre esta pintura e “Independência ou Morte”, de Pedro Américo. O francês Meissonier era especialista em cenas militares e sua habilidade mais destacada era a reprodução de figuras equestres em movimento – que, não coincidentemente, dominam e dão movimento a ambas as cenas. O objetivo do artista brasileiro foi claro: inspirar o patriotismo nacional com uma imagem napoleônica

‘Grito do Ipiranga’, de Pedro Américo de Figueiredo

“Pedro Américo era um artista muito ligado ao Império e tinha sido contratado por D. Pedro II para pintar o Grito do Ipiranga e a ‘Batalha do Avaí’ – episódio da Guerra do Paraguai”, conta o historiador Eduardo Bueno. “Ele morava e estudava em Florença, com uma bolsa bancada pelo Estado, e foi lá que pintou ‘Independência ou Morte’, quase 70 anos depois do evento original”, acrescentou Bueno. Para dar à sua obra o máximo de autenticidade, o artista paraibano mandou buscar amostras do barro das margens do Rio Ipiranga, que foram levadas do Brasil à Itália, mas uma simples sobreposição das imagens – como o leitor vê no vídeo – revela que este preciosismo foi, na verdade, um embuste.

Os cavalos retratados por Pedro Américo nunca estiveram ali. Na verdade, a viagem entre Santos e São Paulo era feita em mulas e a “comitiva” de D. Pedro I não trajava uniformes de Guarda de Honra naquele instante. Não há nem mesmo um consenso sobre o brado retumbante de “independência ou morte” que, para uns, foi pinçado de uma frase maior e, para outros, uma mentira histórica.

Vindo de Santos para São Paulo, consumido por uma terrível diarreia, D. Pedro I parara pela oitava vez para se aliviar: “Os Correios Reais, vindos do Rio de Janeiro, o interceptaram no caminho e informaram sobre a decisão da Corte Portuguesa de devolver ao Brasil o status colonial. Existem pelo menos dez relatos de testemunhas deste instante”, narra o escritor Laurentino Gomes.

NINGUÉM VIU

De acordo com a historiadora, Doutora em História Social e professora da USP, Cecilia Helena de Salles Oliveira, “Pedro Américo imortalizou uma cena que ninguém viu”. Segundo ela, o pintor preencheu a história: “D. Pedro I viajava com uma comitiva muito pequena e foi necessário adicionar uma guarda enorme à cena. Os cavalos, todos puro-sangue, nem existiam no Brasil, nesta época. O artista se justificou, dizendo que ‘o pintor não pode ser escravizado pela realidade’ e, na verdade, foi a fantasia que acabou determinando a realidade, porque os uniformes usados pela cavalaria, no quadro, acabaram inspirando o usado pelos Dragões da Independência até os dias atuais”.

Outro historiador da USP, Paulo Cézar Garcez, enfatiza o lado institucional da pintura. “Pedro Américo nunca pretendeu expressar fielmente o momento do Grito do Ipiranga. Ele seguia uma escola europeia que pregava que os momentos históricos deviam ser retratados de uma maneira decorativa. Não havia um comprometimento com a realidade e o fundamental era ‘como’ aquele momento deveria ser lembrado”, afirmou o especialista.

Na verdade, a Independência do Brasil, propriamente dita, aconteceu em 1º de agosto de 1822, com o “Manifesto Aos Povos Deste Reino”, e o 7 de Setembro foi escolhido – e construído – posteriormente, em maio de 1823, já como uma data comemorativa.

Assim como o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, que colocaria fim à corrupção no país, o Grito do Ipiranga e sua representação definitiva, que é a tela “Independência ou Morte”, foi uma elaboração política que deu e ainda dá à patuleia ignara um afã positivista, uma ambição pragmática que, até hoje, tenta negar a vocação colonial de um povo que foi esculpido para o domínio e só se realiza pelo subjugo.